O Ateísmo como artifício falacioso (assim como qualquer religião)
Estou lendo o livro Quebrando o Encanto: A religião como fenômeno natural, de Daniel C. Dennett.
Ótimo livro, apresenta um desenvolvimento muito interessante de pensamento, salvo alguns detalhes…
Dennett é um tremendo morde-e-assopra, ao começar qualquer raciocínio, ele dá claramente a entender crer que ele e quem pensar como ele sejam superiores, Übermensch, detentores de conhecimento e sabedoria supremos e prestes a compartilhar com quem se submeter a sua superioredade, enquanto todos que pensarem diferente são ignorantes demais para terem o direito de tentar qualquer argumentação.
Mas logo depois, evolui o raciocínio defendendo o direito dos ignorantes serem ignorantes, como se isso fosse uma forma de respeito.
Decartes, o fanfarrão
Sabemos que grandes gênios também cometem erros, porém, até que se prove factualmente que uma determinada afirmação de um gênio seja besteira, ela merece ao menos o benfício da dúvida – o mais sagrado princípio do Ceticismo.
Dennett ataca René Descartes, mestre do Negativismo, chamando-o de confuso por defender o conceito de mente como res cogitans.
Segundo Descartes, a mente possui existência a parte do corpo. Já Dennett e seus correligionários acreditam inflexivelmente que a mente seja resultado dos impulsos elétricos do cérebro.
Nada nega cientificamente a ideia de que a mente seja uma entidade a parte da matéria conhecida e que o cérebro seja uma interface de duas vias do corpo com a mente, mas o pseudocético defende fortemente suas crenças.
Por outro lado, Dennett elogia e defende Skinner, que supervalorizava a previsibilidade em detrimento da liberdade, e John Locke, que considerava a mente humana uma tábua rasa, sem profundidade, ambos sem provas.
No entanto ausência de evidência é evidência de ausência para os ateus, sempre que isso for conveniente ao Ateísmo.
Se eu não vejo, não existe
Tudo aquilo que a ciência, onisciente segundo as afirmações contraditórias de Dennett, não reconhece, não existe: é ilusão, imaginação fértil se multiplicando memeticamente.
A explicação é (desfarçadamente) que se algo pode ser fraudado, então é fraude.
Portanto o exército norte-americano deve ser uma fraude, já que a religião de John Frum na ilha Efate acreditam que seus deuses, os soldados norte-americanos, voltarão um dia. Se eles podem fraudar o exército norte-americano, então deve ser uma fraude.
Porém quando você chega às argumentações sobre fraude e imaginação, já leu muita coisa desde quando o próprio Dennett citou a religião do Pacífico e não faz a conexão, não percebe a contradição.
Outros poderão dizer: mas os soldados não são deuses!
E o que são deuses? Seres superpoderosos que descem dos céus em seus barcos alados e podem matar um homem apenas apontando seu bastão mágico?
Nem tudo são flores
Mesmo assim o livro é muito interessante. Além de expor as contradições grotescas do Ateísmo, expõe muitos ridículos das grandes religiões e suas mentiras, também a ingenuidade das pequenas crenças.
É impecável sua lógica sobre como é estranho a maioria das pessoas no mundo discordarem de um religioso – qualquer que seja – se ele é o dono da verdade.
Outro argumento interessante é este:
E imagine que os fãs das histórias de Harry Potter, de J. K. Rowlings, tentassem iniciar uma nova tradição: todos os anos, no aniversário da publicação do primeiro livro de Harry Portter, as crianças receberiam presentes dados pelo menino, que entraria pela janela em sua vassoura mágica, acompanhado por sua coruja. Vamos tornar o Dia de Harry Portter um dia mundial para as crianças! Os fabricantes de brinquedos estariam todos a favor…
Ideia revoltante, não? Mas já fizeram isso… chama-se Papai Noel.
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Cacilhας, La Batalema
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Papai Noel era um bruxo?
ResponderExcluiro_O
Brincadeiras a parte, o livro realmente deve ser bom. Para prender a sua leitura com toda essa inflexibilidade, realmente alguma coisa deve fazer sentido.
Mas fiquei curioso, o que ele utiliza como para exemplificar as contradições do ateísmo?
Realmente o livro é muito bom. Toquei nos pontos ruins neste artigo, mas foi um tanto maldade minha.
ResponderExcluirOs pontos fortes são muito mais contundentes, me fazendo continuar lendo o livro mesmo com as estranhezas que citei.
A maior contradição que vejo no Ateísmo é assumir postura científica como se isso desse ao ateu um posição de superioridade, colocando-o em um altar onde as falhas humanas que atingem os religiosos não pudessem alcançá-lo.
Defende ideias não confirmadas, tão boas quanto outras que eles atacam, como se elas lhes tivessem sido reveladas por comunicação divina. Nada diferente de como um fanático religioso age.
Também criticam o argumentum ad ignorantiam dos religiosos, que afirmam que se não há provas da inexistência de Deus, então Deus existe (concordo com os ateus aqui, totalmente ridículo), mas citam a ausência de evidência como evidência de ausência, o que também é argumentum ad ignorantiam, para tudo aquilo em que eles não acreditam.
É mais ou menos o que o Coala debocha na tirinha sobre tipinhos, ao citar o fanático ateu dentro do tipinho fanático religioso.
Há ateus geniais, como Carl Sagan, um de meus heróis, mas há fanáticos intolerantes (e intoleráveis) como Richard Dawkins.
[]’s
Cacilhας, La Batalema